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Conexão Pindorama revela a força do audiovisual indígena em Pernambuco

Publicado em 14/04/2026 | Última atualização em 14/04/2026.

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Conheça o Conexão Pindorama, acervo inédito da filmografia indígena pernambucana, contemplado no Edital Solano Trindade

O dia 19 de abril celebra o Dia dos Povos Indígenas no Brasil, uma data que transcende a comemoração e se firma como um símbolo da resistência e da luta contínua por direitos e pela preservação de tradições milenares. A mudança de nomenclatura, consolidada pela Lei 14.402 de julho de 2022, substituiu o antigo "Dia do Índio" para refletir a vasta e plural diversidade étnica do país, afastando-se de um termo que, no singular, invisibilizava a riqueza cultural das diferentes nações. Essa atualização é fundamental para desmistificar o senso comum, ainda muito presente, de que a existência dos povos originários está restrita à região amazônica. Na verdade, eles estão presentes nas cinco regiões brasileiras, e Pernambuco é um exemplo vivo dessa diversidade que rompe estereótipos. Com 106.646 pessoas autodeclaradas indígenas, segundo o Censo 2022 do IBGE, Pernambuco ocupa a quarta colocação no ranking nacional, ficando atrás apenas do Amazonas, Bahia e Mato Grosso do Sul. Essa expressiva população, que representa 6,3% do total nacional, não é uma presença isolada, mas sim uma rede de culturas vivas que se estende especialmente entre o Agreste e o Sertão pernambucano. Etnias como Atikum, Fulni-ô, Pankararu, Tuxá e Xucuru são testemunhas da vitalidade dessas identidades no estado. É dentro dessa proposta de visibilizar tais realidades que ganha corpo o projeto Conexão Pindorama, coordenado pela professora Paula Santana, da Área de Ciências Sociais da Universidade Federal Rural de Pernambuco - Unidade Acadêmica de Serra Talhada (UFRPE-UAST). As raízes da iniciativa remontam a 2017, quando o Grupo de Estudos e Pesquisas Macondo organizou a 1ª Mostra de Cinema Indígena da universidade, motivado pela necessidade de cumprir a Lei nº 11.645/2008, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena em todos os níveis educacionais. A partir de articulações com cineastas e parceiros indígenas, o evento alcançou uma repercussão surpreendente: reuniu cerca de 600 pessoas ao longo de dois dias de evento em um espaço com capacidade para apenas 90, contando ainda com uma feira de artesanato. Essa experiência revelou o imenso potencial do cinema como ferramenta pedagógica e estreitou, de forma definitiva, os laços entre o corpo discente e a vivência indígena no semiárido pernambucano, consolidando o Conexão Pindorama como um espaço essencial de diálogo e educação intercultural. Localizada no Sertão do Pajeú, a UFRPE-UAST assumiu o pioneirismo nacional ao incluir a disciplina de Educação para as Relações Étnico-Raciais nos currículos de licenciatura. No entanto, diante de uma carga horária de 60 horas considerada insuficiente para sanar lacunas formativas, o projeto Conexão Pindorama emergiu como um suporte essencial em duas frentes: o fortalecimento da autonomia indígena no audiovisual e o apoio pedagógico a docentes e estudantes. O que começou como um acervo de filmes produzidos pelas próprias comunidades evoluiu para um ambiente pedagógico digital robusto. Segundo a professora Paula Santana, o portal agora centraliza materiais didáticos e referências bibliográficas, oferecendo recursos confiáveis e contextualizados para a educação básica e superior — uma ferramenta indispensável para a construção de uma educação intercultural e para o combate direto ao racismo anti-indígena em Pernambuco. “Nós temos povos indígenas do Litoral ao Sertão. E aprendemos muito pouco sobre tais populações nos livros didáticos, que são concebidos a partir da perspectiva da História oficial, contada a partir dos documentos produzidos pela Colônia Portuguesa e depois pelo Império. Acreditamos que o cinema, em sua capacidade e potência de sensibilização, pode ser um importante elemento de trabalho para aproximar estudantes e professores de outros mundos possíveis, como o indígena, por exemplo”, afirma a coordenadora do projeto. O projeto ganhou viabilidade financeira por meio do Edital Facepe de Estudos Étnico-Raciais Solano Trindade (chamadas nº 29/2021 e 21/2024), uma iniciativa focada em fomentar pesquisas e ações de extensão que consolidem políticas de ações afirmativas nas instituições de ensino superior de Pernambuco. Os eixos que norteiam a chamada refletem um compromisso estratégico da Facepe com uma academia socialmente situada, estruturando-se em três pilares fundamentais. O primeiro eixo foca no fortalecimento institucional dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs), Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABIs) e grupos de pesquisa correlatos nas instituições de ensino superior de Pernambuco que atuam diretamente no enfrentamento ao racismo e na redução das desigualdades estruturais. O segundo eixo prioriza a integração entre a pesquisa e a extensão, fomentando projetos que conectem a produção científica ao trabalho de campo, promovendo ações práticas de impacto na sociedade pernambucana. Por fim, o edital incentiva a inovação e a tecnologia através do desenvolvimento de produtos, equipamentos, serviços e métodos voltados especificamente à promoção da igualdade étnico-racial. Para a professora Paula Santana, que concilia a docência na UFRPE-UAST com o Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o apoio foi um instrumento imprescindível. “O recurso advindo da Facepe não apenas permitiu a execução técnica do Conexão Pindorama em interlocução direta com as demandas dos povos originários, mas também viabilizou a ampliação do acesso ao acervo audiovisual produzido pelas populações indígenas de Pernambuco. O financiamento por meio do Edital Solano Trindade, específico para uma temática tão fundamental, contribui não só para a continuidade do trabalho, mas também para uma transformação social sem precedentes”, observa Paula. O recurso permitiu, também, a composição de uma equipe que conta com estudantes de iniciação científica, pós-graduação e egressos da graduação, além de professores de diversas áreas e parceiros indígenas. A presença de estudantes indígenas e quilombolas na equipe, segundo Paula, é fundamental para o desenho das ações e para a produção dos materiais, especialmente nas práticas pedagógicas voltadas à educação infantil e ao ensino fundamental. Projeto intercultural Paula Santana destaca que o Conexão Pindorama fundamenta-se na interculturalidade crítica, promovendo um diálogo necessário entre a ciência ocidental moderna e os saberes tradicionais. Para a docente, as cosmologias e técnicas indígenas oferecem perspectivas que ampliam a reflexão científica e pedagógica, funcionando como uma estratégia à desinformação e ao anti-indigenismo. “Esses saberes contribuem para as ciências humanas e exatas ao questionar o positivismo e a falsa neutralidade científica, ajudando a enfrentar lógicas de desenvolvimento que geram destruição ambiental e social”, pontua Paula, reforçando o potencial do projeto para uma educação transformadora. Na prática, a filosofia do projeto já apresenta resultados tangíveis. A iniciativa promove ciclos de formação para docentes de escolas estaduais e municipais, com uma abrangência que contempla desde centros urbanos até escolas indígenas, quilombolas e do campo. Viabilizadas por articulações estratégicas com gestores e secretarias de educação, as atividades registram alta receptividade. Na ponta do processo, as oficinas resultam na elaboração de sequências didáticas aplicáveis, confirmando o impacto direto e imediato da proposta no cotidiano das salas de aula. Para além da produção acadêmica, o projeto atua diretamente na quebra de estigmas e na reafirmação da identidade indígena no Nordeste. A professora Paula relata episódios em que a interação direta com as comunidades locais foi transformadora, inclusive para outros indígenas. Ela relembra a visita de Jaider Esbell, artista indígena do povo Macuxi, que, ao conhecer seus parentes pernambucanos, sentiu a necessidade de combater a ideia equivocada de que os povos do Nordeste seriam "menos indígenas" devido ao processo histórico de contato e ocupação territorial. Essa percepção deu origem a um movimento de articulação que percorreu diversas universidades nordestinas, conectando pesquisadores e lideranças. "Ele começou o percurso no Maranhão e seguiu até a Bahia. Quando chegou aqui em Pernambuco, passou pela nossa universidade e promovemos uma circulação", recorda a docente. Esse intercâmbio de saberes e vivências reforça que a identidade indígena não é estática nem restrita a uma única região, sendo fundamental para desconstruir preconceitos que ainda permeiam o imaginário social sobre os povos do semiárido. Atualmente, o projeto avança para uma etapa tecnológica e informativa crucial com a criação de um mapa interativo. Essa ferramenta apresentará dados demográficos e informações sobre os biomas dos territórios indígenas de Pernambuco, permitindo que professores e estudantes explorem a realidade do estado de forma georreferenciada e detalhada. Além dessa inovação digital, o cronograma para 2026 prevê o lançamento de dois volumes de uma coleção inédita de sequências didáticas, chamada Pindorama em Plano Sequência. O primeiro volume é voltado para as áreas de Ciências Exatas e da Natureza, e o segundo se dedica às Ciências Humanas, Artes, Linguagens e Educação Física, consolidando o material pedagógico necessário para uma educação intercultural. A estrutura de financiamento deste e de outros editais promovidos pela Facepe tem sido o alicerce para projetos como o Conexão Pindorama, garantindo que a produção de conhecimento acadêmico não apenas ocupe os muros da universidade, mas responda ativamente às demandas das comunidades originárias e afro-brasileiras de Pernambuco. Conheça o projeto: http://www.conexaopindorama.com.br/ O edital O Edital Solano Trindade vem se consolidando como uma das iniciativas mais estratégicas para a promoção de ações afirmativas no estado. A primeira edição, lançada em novembro de 2021, destinou cerca de R$ 1,5 milhão para apoiar 17 projetos. A segunda edição, realizada em 2024, teve uma expansão significativa tanto no alcance quanto no aporte, contemplando 20 projetos com um investimento total de R$ 2,5 milhões. O nome da chamada homenageia Francisco Solano Trindade. Nascido no bairro de São José, no Recife, Solano foi um artista multifacetado, poeta, dramaturgo, ator, artista plástico e ativista, cuja trajetória se confunde com a própria luta pela valorização da identidade afro-brasileira. Sua obra poética é um dos pilares da literatura nacional, sendo profundamente marcada pela exaltação da cultura negra, da resistência e das tradições de matrizes africanas. Como pintor, Solano utilizava cores vibrantes para retratar a estética afro-brasileira e os elementos da cultura popular, traduzindo visualmente a força de suas convicções. Além da escrita e das artes visuais, ele deixou um legado fundamental nas artes cênicas, sendo um dos fundadores do Teatro Popular Brasileiro, projeto que idealizou ao lado de Margarida Trindade e Edison Carneiro. O Edital de Estudos Étnico-Raciais Solano Trindade é uma realização da Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti) por meio da Facepe. Criada pela Lei Estadual N° 10.401/1989 e vinculada à Secti, a Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco promove o desenvolvimento científico e tecnológico do estado, alinhando inovação às demandas socioeconômicas. Sua atuação ocorre por meio do fomento direto, que inclui a concessão de bolsas de estudo e pesquisa, além de auxílios financeiros para projetos locais. A Facepe também apoia atividades estratégicas, como treinamentos, eventos científicos, intercâmbios e organização de cursos na área de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I). Acompanhe as novidades deste e de outros editais em nosso site (facepe.br) e também no nosso Instagram (@facepe_oficial). Contatos para entrevista (favor não publicar os contatos): Paula Santana Coordenadora do projeto Conexão Pindorama Docente da Área de Ciências Sociais da UFRPE-UAST e da Pós-Graduação em Sociologia da UFPE, coordenadora do projeto Conexão Pindorama Telefone: (81) 99136-4124 E-mail: paula.santana@ufpe.br Manoel Sotero Caio Netto Vice-coordenador do projeto Conexão Pindorama Docente da Área de Ciências Sociais da UFRPE-UAST Telefone: (81) 99141-5660 E-mail: manoel.caio@ufrpe.br Assessoria de Comunicação da Facepe (81) 3181-4640 (81) 98373-1988 asscom@facepe.br

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