Quando a ficção científica vira realidade: o feito quântico que conecta Recife
Publicado em 25/03/2026 | Última atualização em 25/03/2026.
Há poucos anos, o que poderia ser considerado roteiro de filme de ficção científica começou a se tornar realidade nas ruas de Recife, em Pernambuco. Pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) conseguiram fazer algo extraordinário: transmitir informações quânticas através das fibras ópticas que já passam pela cidade.
Tudo começou em 2023. Um grupo de cientistas, liderado pelo professor associado da UFPE Daniel Felinto, tinha um objetivo ambicioso: criar a Rede Quântica Recife (RQR), uma infraestrutura capaz de distribuir criptografia quântica entre diferentes pontos da universidade — distâncias que chegam a sete km. Mas havia um desafio: como conectar essas instituições sem investir em infraestrutura completamente nova? A resposta veio através de uma parceria estratégica.
A Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) tinha fibras ópticas ociosas passando pela região, subutilizadas. Colocar essa infraestrutura existente a serviço da pesquisa quântica foi um passo natural de articulação. O Ponto de Presença da RNP em Pernambuco (PoP-PE) tornou-se a peça fundamental que permitiu aos pesquisadores de Recife conectarem departamentos, universidades e ideias. “O apoio do POP-PE foi fundamental para executar o projeto”, afirma o time de pesquisadores.
O experimento que mudou tudo
Em 2025, o Instituto Quanta publicou os resultados na Brazilian Journal of Physics, prestigiada revista científica internacional, publicada pela Sociedade Brasileira de Física (SBF). O artigo apresentava algo que desafiou expectativas: pares de fótons emaranhados — partículas de luz conectadas de forma tão profunda que mudar uma instantaneamente afeta a outra — viajando quilômetros através das fibras ópticas de Recife mantendo suas propriedades quânticas intactas.
Para quem não trabalha com física quântica, deixa a gente simplificar o impacto disso: cientistas conseguiram manter a segurança total de uma mensagem criptografada mesmo quando ela viaja pela rede urbana. Não há computador poderoso o suficiente — nem mesmo os futuros computadores quânticos — capaz de quebrar essa segurança. É uma garantia de proteção cibernética sem precedentes.
Além do laboratório: pensando grande
Mas a história não termina com um artigo científico. Enquanto o experimento confirmava a viabilidade técnica, o Instituto Quanta já estava pensando em escala.
Em 2024, o grupo se expandiu. Pesquisadores de diferentes departamentos (Física, Engenharia Eletrônica, Engenharia de Produção e Centro de Informática) se uniram sob um único teto: o Instituto de Tecnologias Quânticas (Quanta UFPE). Um projeto submetido à Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), aprovado como Centro Temático, colocou combustível nessa ambição.
O Instituto Quanta não busca apenas entender a mecânica quântica. Quer transformá-la em soluções reais: computadores quânticos, sensores quânticos e criptografia à prova de futuro, com foco em aplicações com impacto real na defesa, indústria e segurança.
E o melhor: toda essa infraestrutura vai ficar em Recife, no ParqueTec da UFPE, gerando conhecimento, empregos e posicionando a região como referência em tecnologias quânticas.
A rede cresce: quando uma ideia vira ecossistema
A visão agora é ainda mais ambiciosa. O Instituto planeja expandir a Rede Quântica Recife de sete km para até 40 km, alcançando Porto Digital, outros institutos de pesquisa e criando um ecossistema de inovação quântica na região metropolitana.
Para isso, seguirão utilizando a infraestrutura da RNP. A rede acadêmica brasileira, que tem como papel conectar instituições de educação e pesquisa no Brasil, também serve como base para iniciativas de ponta em tecnologia quântica, porque é exatamente isso que redes de infraestrutura compartilhada devem fazer: viabilizar colaboração que não seria possível de outra forma.
O que isso significa para o Brasil
Enquanto potências globais, como governos e corporações multinacionais, investem bilhões em tecnologias quânticas, Pernambuco está no jogo. Não como observador, mas como criador.
O feito do Instituto Quanta não é só científico. É um exemplo de como comunidade, articulação entre instituições e infraestrutura compartilhada conseguem colocar o Brasil na fronteira da inovação, mesmo em tecnologias que pareciam estar reservadas apenas aos gigantes tecnológicos.
Histórias como essa só são possíveis quando universidades, redes e pesquisadores conseguem trabalhar juntos, quando infraestrutura existente é colocada a serviço de descoberta e inovação. E é justamente aí que reside o valor real de um ecossistema baseado na colaboração.
FONTE: RNP
